O jumento, porém, que abrir a madre, resgatá-lo-ás com cordeiro; mas, se o não resgarares, será desnucado. Remirás todos os primogênitos de teus filhos. Ninguém aparecerá diante de mim de mãos vazias. (Êx 34.20).
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O jumento, porém, que abrir a madre, resgatá-lo-ás com cordeiro; mas, se o não resgarares, será desnucado. Remirás todos os primogênitos de teus filhos. Ninguém aparecerá diante de mim de mãos vazias. (Êx 34.20).
Em qualquer ocasião em que surge o assunto de predestinação ou eleição, a pergunta se segue depressa:"É predestinação una ou dupla?" .
A questão mais profunda é como a reprobação ("o decreto da providência referente à condenação dos maus às penas eternas") está relacionada com a eleição. Reprobação é o lado leviano de eleição, o lado escuro do assunto que levanta muitas preocupações. E é a doutrina da reprobação que tem feito aparecer o rótulo de "decreto horrível". Uma coisa é falar na graciosa predestinação à eleição de Deus, mas outra é falar no decreto de Deus, desde toda a eternidade, de que certas pessoas desafortunadas estão destinadas à condenação às penas eternas.
Alguns defensores de predestinação argumentam a favor de uma predestinação única. Mantêm que, embora alguns sejam predestinados à eleição, ninguém é predestinado à condenação ou reprovação. Deus escolhe alguns que definitivamente salvará, mas deixa aberta a oportunidade de salvação para o restante. Deus se certifica de que alguns indivíduos são salvos providenciando para eles ajuda especial, mas o restante da humanidade ainda tem uma oportunidade de ser salva. Eles podem, de algum modo, tornar-se eleitos respondendo positivamente ao evangelho.
Esse modo de ver é baseado mais em sentimento do que em lógica ou exegese. É manifestamente óbvio que se algumas pessoas são eleitas e algumas não são eleitas, então a predestinação tem nela dois lados. Não é suficiente falar em Jacó; também precisamos considerar Esaú. A não ser que a predestinação seja universal, ou para eleição universal ou reprovação universal, ela precisa ser dupla em algum sentido.
Dado que a Bíblia ensina tanto eleição como particularismo, não podemos evitar o assunto de predestinação dupla. A pergunta então não é se predestinação é dupla, mas como a predestinação é dupla. Há dois pareceres diferentes de predestinação dupla. Um deles é tão assustador que muitos recusam completamente o uso do termo dupla predestinação. Essa visão assustadora é chamada deultimação igual, e se baseia numa visão simétrica de predestinação. Ela vê uma simetria entre a obra de Deus em eleição e sua obra em reprovação. Ela busca um equilíbrio exato entre os dois. Assim como Deus intervém na vida dos eleitos para criar fé em seus corações, assim ele similarmente intervém nos corações dos réprobos para operar descrença. Esta é inferida de passagens bíblicas que falam em Deus endurecer os corações das pessoas.
A teologia reformada clássica rejeita a doutrina de ultimação igual. Embora alguns tenham rotulado essa doutrina de "hipercalvinismo", eu prefiro chamá-la de "subcalvinismo", ou, até mais precisamente, "anticalvinismo". Ainda que o calvinismo certamente mantenha uma espécie de predestinação dupla, ela não abraça a ultimação igual. A visão reformada faz uma distinção crucial entre os decretos positivos e negativos. Deus decreta positivamente a eleição de alguns e negativamente decreta a reprovação de outros. A diferença entre positivo e negativo não se refere ao final (conquanto o resultado de fato seja ou positivo ou negativo), mas à maneira pela qual Deus faz acontecer seus decretos na História.
O lado positivo se refere à intervenção ativa de Deus nas vidas dos eleitos para operar fé em seus corações. O negativo se refere não a Deus estar operando descrença nos corações dos réprobos, mas simplesmente a ele não tomar conhecimento deles e reter deles sua graça regeneradora.
Calvino comenta sobre isso: "Ora, se nós não estamos realmente envergonhados do Evangelho, precisamos necessariamente reconhecer o que está nele abertamente declarado: que Deus, por sua eterna bondade (para a qual não houve nenhuma causa senão seu próprio propósito), nomeou aqueles que quis para a salvação, rejeitando todos os demais; e que aqueles a quem ele abençoou com essa livre adoção para serem seus filhos ele ilumina pelo seu Santo Espírito, para que possam receber a vida que lhes é oferecida em Cristo; enquanto que outros, continuando de vontade própria em descrença, são deixados destituídos da luz da fé, em escuridão total".
Para Calvino e outros reformadores Deus passa por cima dos réprobos, deixando-os a seus próprios inventos. Ele não os força a pecar ou criar novo mal em seus corações. Ele os deixa a si mesmos, com suas opções e desejos, e eles sempre escolhem rejeitar o evangelho.
Uma vez ouvi o presidente de um seminário presbiteriano responder a uma pergunta sobre predestinação dizendo: "Eu não creio em predestinação porque não creio que Deus traz algumas pessoas chutando e gritando, contra suas vontades, para dentro de seu reino, enquanto ao mesmo tempo ele recusa acesso àqueles que sinceramente desejam estar lá". Essa resposta me surpreendeu, não só porque a negação pública de predestinação do presidente violava ostensivamente seus votos de ordenação na Igreja Presbiteriana, mas também porque revelava uma incompreensão radical de uma doutrina com a qual ele deveria estar bastante familiarizado.
A teologia reformada não ensina que Deus traz os eleitos "chutando e gritando, contra suas vontades", para dentro de seu reino. Ensina que Deus opera de tal modo nos corações dos eleitos de maneira a fazê-los dispostos e felizes de vir a Cristo. Eles vêm a Cristo porque querem. Querem porque Deus já criou em seus corações um desejo por Cristo. Do mesmo modo os réprobos não querem abraçar Cristo sinceramente. Não têm nenhum desejo por Cristo e estão fugindo dele.
O conceito de justiça incorpora tudo que é justo. O conceito de não-justo inclui tudo fora do conceito de justiça: injustiça, que viola justiça e é má, e misericórdia, que não viola justiça e não é má. Deus dá sua misericórdia (não-justiça) para alguns e deixa ao restante sua justiça. Ninguém é tratado com injustiça. Ninguém pode acusar que há injustiça em Deus.
Quando Paulo fala de Deus ter amado Jacó e odiado Esaú (Rm 9.13), esse "ódio" divino não pode ser igualado com ódio humano. É um ódio santo (veja SI 139.22). O ódio divino nunca é malicioso. Ele retém favor. Deus é "a favor" de seus eleitos de um modo especial, demonstrando seu amor por eles. Ele volta a face daquelas pessoas más que não são objeto de sua graça especial. Aqueles que ele ama com seu "amor de complacência" recebem sua misericórdia. Aqueles a quem ele "detesta" recebem sua justiça. Ninguém é tratado de maneira injusta.
Concluímos que a eleição da qual a Bíblia fala é incondicional. Nenhuma ação prevista dos eleitos faz que eles sejam eleitos ou fornece as bases de sua eleição. As condições para salvação ou justificação são realmente satisfeitas pelo crente, mas são satisfeitas porque Deus fornece essas condições a eles por sua graça soberana. Calvino resume isso do seguinte modo:
Muitos controvertem todas as posições que nós temos colocado, especialmente a eleição gratuita de crentes, que, entretanto, não pode ser derrubada. Pois comumente imaginam que Deus distingue entre homens de acordo com os méritos que ele prevê que cada indivíduo terá, dando a adoção de filhos àqueles que ele sabe de antemão que não serão indignos de sua graça, e condenando aqueles à destruição cujas disposições ele percebe que serão voltadas a danos e maldade. Assim interpondo pré-ciência como um véu, eles não só obscurecem a eleição, como pretendem dar a ela uma origem diferente.
Em Romanos Paulo faz uma pergunta retórica: "Que diremos pois? Há injustiça com [em] Deus?" Novamente perguntamos por que Paulo fez essa pergunta. Ele era um professor, um mestre por excelência. Ele antecipava objeções que poderiam ser levantadas por seu ensino, e ele tratava delas assumidamente. Que objeção ele tem em vista quando levanta a questão de injustiça em Deus?
Primeiro consideramos a visão presciente da eleição. Que objeções levantadas contra ela incluem o ataque que há injustiça em Deus? Nenhuma. A visão condicional da eleição é proposta para proteger duas fronteiras: de um lado, uma visão particular de liberdade humana, e do outro uma visão específica de Deus. Buscam proteger Deus da acusação de que ele é parcial, arbitrário ou injusto, escolhendo algumas pessoas para salvação sem levar em conta suas próprias escolhas. Em resumo, oposição a visões arminianas ou semipelagianas de eleição não inclui a acusação de que isso coloca em dúvida a justiça de Deus. Se Paulo estivesse expondo a visão presciente, dificilmente esperaríamos que ele levantasse uma objeção desse tipo.
A objeção que Paulo chega a antecipar é uma que calvinistas ouvem constantemente: a doutrina calvinista de eleição lança uma sombra sobre a justiça de Deus. A reclamação forte e frequente é que a eleição incondicional envolve Deus numa espécie de injustiça. Minha suposição é que Paulo antecipou a própria objeção levantada que calvinistas ouvem porque ele ensinou a mesma doutrina de eleição que calvinistas ensinam. Quando
nossa doutrina de eleição é atacada, eu me consolo que estamos em boa companhia, a do próprio Paulo, quando precisamos suportar as objeções capciosas daqueles que fazem oposição à eleição incondicional.
A idéia de que pode haver injustiça em Deus é relacionada ao fato de Deus escolher alguns para salvação enquanto passa por cima de outros. Não parece justo nem "direito" Deus conferir sua graça em alguns mas não em outros. Se a decisão de abençoar Jacó e não Esaú foi feita antes de um dos dois nascer ou ter feito algo de bem ou mal, e se a escolha não foi com vistas a suas ações ou reações futuras, então a pergunta óbvia é: Por que um recebeu a bênção e não o outro?" Paulo responde isso apelando a palavras de Deus a Moisés: "Eu terei misericórdia de quem eu terei misericórdia". É prerrogativa de Deus dispensar sua graça conforme ele acha por bem. Ele não ficou devendo nem a Jacó nem a Esaú qualquer medida de graça. Se não tivesse escolhido um dos dois, ele não teria violado nenhum preceito de justiça ou retidão.
Ainda parece que se Deus dá graça a uma pessoa, no interesse de justiça ele "deveria" dar graça igualmente para outra. É precisamente esse "dever" que é estranho ao conceito bíblico de graça. Entre a massa de humanidade decaída, todos culpados de pecado diante de Deus e expostos à sua justiça, nenhum tem qualquer reivindicação ou autorização à misericórdia de Deus. Se Deus escolhe conceder misericórdia a alguém daquele grupo, isso não requer que ele dê isso a todos.
Deus certamente tem poder e autoridade de conceder sua graça salvadora a toda a humanidade. É óbvio que ele não optou fazer isso. Os homens não são todos salvos, apesar do fato que Deus tem o poder e o direito de salvá-los todos se esse é seu bel-prazer. Também está claro que nem todos são perdidos. Deus poderia ter escolhido não salvar ninguém. Ele tem o poder e a autoridade de executar sua reta justiça não salvando ninguém. Na realidade ele opta por salvar alguns, mas não todos. Aqueles que são salvos são beneficiários de sua soberana graça e misericórdia. Aqueles que não são salvos não são vítimas de crueldade ou injustiça; eles são recebedores de justiça. Ninguém recebe castigo às mãos de Deus que não mereça. Alguns recebem graça das mãos de Deus que não merecem. Por ele se agradar tanto em conceder misericórdia a alguém não significa que os demais "merecem" o mesmo. Se a misericórdia é merecida, ela não é misericórdia realmente, e sim justiça.
A história bíblica deixa claro que embora Deus nunca seja injusto a ninguém, ele não trata todas as pessoas igualmente ou de um mesmo modo. Por exemplo, Deus, em sua graça, chamou Abraão para sair de seu paganismo em Ur dos caldeus e fez um pacto gracioso com ele que não fez com outros pagãos. Deus se revelou a Moisés de uma maneira que não concedeu a faraó. Deus deu a Saulo de Tarso uma revelação bendita da majestade de Cristo que não deu a Pilatos ou Caifás. Por Deus ser tão gracioso a Paulo quando ele foi um perseguidor violento de cristãos, será que por isso ele era obrigado a dar a mesma vantagem revelatória a Pilatos?
Ou houve uma qualidade virtuosa especial em Saulo que inclinou Deus a escolhê-lo acima de Pilatos? Poderíamos saltar por cima dos séculos para nosso próprio tempo com uma pergunta similar. Nós, crentes, precisamos perguntar por que chegamos à fé enquanto que muitos de nossos amigos não chegaram. Será que exercemos fé em Cristo porque somos mais inteligentes do que aqueles outros? Se é assim, de onde veio essa inteligência? É algo que fizemos por merecer? Ou foi a nossa própria inteligência uma dádiva de nosso Criador? Nós respondemos positivamente ao evangelho porque somos melhores ou mais virtuosos do que nossos amigos?
Todos nós sabemos as respostas a essas perguntas. Eu não posso explicar adequadamente por que cheguei à fé em Cristo e alguns de meus amigos não. Só posso olhar para a glória da graça de Deus para comigo, uma graça que eu não mereci na ocasião e não mereço agora. Aqui uma e outra coisa se reuniram, e nós descobrimos se estamos abrigando um orgulho secreto, crendo que merecemos salvação mais do que outros. Eis aí um grande insulto à graça de Deus e um monumento à nossa própria arrogância. É uma inversão à pior forma que há de legalismo, pela qual nós, no fim, colocamos nossa confiança em nosso próprio acionamento.
Todas as coisas cooperam para o Bem
E sabemos que Deus faz que todas as coisas cooperem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.
Iremos nos concentrar em um dos versículos mais importantes das Escrituras, [Romanos 8:28]. Porém é algo insensível jogar [Romanos 8:28] numa pessoa para que minimize o sofrimento. Jesus chorou sobre o sofrimento e a feiúra da morte. As Escrituras nunca minimizam a dor e o sofrimento enquanto olhamos para a ressurreição. No entanto, Deus faz com que todas as coisas cooperem para o bem daqueles que O amam.
Alguns poderiam dizer que este versículo soa cruel para eles. No entanto, Deus é totalmente soberano e Ele pode cumprir todas as promessas desde versículo. Depois que vemos o que este versículo realmente significa, então veremos Deus tão elevado e em tudo glorioso.
É impressionante a dor que há neste mundo. Mas quanto pior as coisas estão, quanto maior a história da redenção deve ser para fazer as coisas certas. A história da redenção em Cristo tem um final glorioso como mostra [Efésios 2:7], “ para mostrar , nos vindouros séculos, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus.”
O que você saberia da graça de Deus, se o pecado e o mal e o sofrimento não teriam entrado neste mundo? O que você sabe da misericórdia de Deus? O que você saberia da Sua paciência? O que você conheceria da Sua compaixão? Existem atributos de Deus que nunca conheceríamos, celebraríamos e O louvaríamos por toda a eternidade se não houvesse tão grande sofrimento no mundo. Nós nos tornaremos mais parecidos com Cristo, Deus será mais glorificado por toda a eternidade, e nós experimentaremos bem maior do que jamais teríamos se todas as coisas ruins não tivessem acontecido.
Herdeiros com Cristo
Deus nunca retirou sua intenção original de pessoas justas reinarem sobre a terra por toda a eternidade. [Romanos 8:16-17] diz que “o próprio Espírito testificas com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo, se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados.”
Somos herdeiros do rei e nosso empreendimento familiar é reinar. Teremos corpos ressuscitados, em um mundo ressuscitado, em uma cultura ressuscitada na nova terra. Reinaremos na terra para a glória de Deus. [Daniel 7:27] nos dá um retrato desta realidade vindoura: “O reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo der todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será reino eterno, e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão.”
[Romanos 8:16-17] fala sobre como precisamos sofrer para reinarmos com ele. A vida de facilidades é um prejuízo para o desenvolvimento de pessoas de caráter e de semelhança com Cristo. Deus nos dá muitas dádivas boas, mas Deus não quer que o mundo por vir seja governado por pessoas a menos que sejam semelhantes a Cristo. Cometemos um grande erro em pensar que Deus está simplesmente preparando um lugar para nós, sem nos preparar para este lugar. Deus está nos preparando para governar com justiça como reis servidores no mundo que ele tem para nós. O sofrimento está diretamente relacionado com o reinar sobre o Seu reino como herdeiros de Deus.
As aflições preparam para a Glória
Cada vez que olhamos para [Romanos 8:18] “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” deveríamos compará-lo com [2 Coríntios 4:17] ”Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação.” Se você quiser saber o que Paulo considerava uma tribulação leve e momentânea, leia [2 Coríntios 11:23-29] aprisionamentos, espancamentos, à beira da morte, chicotadas, apedrejamento, naufrágios, fadiga, dificuldades, noites sem dormir, etc.
Jesus disse em [Mateus 13:43] “Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai.” Isto começa aqui e agora e continua por toda a eternidade. Não pense que Deus quer que você espere até que você morra para se tornar semelhante a Jesus. Já nesta vida devemos nos tornar semelhantes a Cristo. Isto acontece através do sofrimento e isto acontece através da adversidade.
É o Espírito de Deus que nos ajuda a crer que a Palavra de Deus é verdadeira em dizer que todas as coisas cooperam para o bem. Nada nos separará do amor de Cristo porque Deus está trabalhando todas as coisas para o nosso bem [Efésios 1:11] e [Romanos 8:28]. O melhor ainda está por vir. Essa é a promessa de Deus paga pelo sangue de Jesus. Quando estiver no meio de um sofrimento e você duvidar que Jesus se importa com você, imagine-o estendendo suas mãos cicatrizadas e mostrando-lhe a prova do seu amor por você.
tradução: Priscilla Borges
© Desiring God 2010 National Conference
Se não somos verdadeiramente convertidos, com toda a certeza odiamos a Deus. A Bíblia não deixa margem para dúvidas nesse ponto. Somos inimigos de Deus. Juramos em nosso interior destruí-lo completamente. É natural que odiemos a Deus, assim como é natural que a chuva molhe a terra ao cair. Aqui nossa irritação pode transformar-se em raiva.
Todos nós negaríamos veementemente o que acabei de escrever. Não encontramos dificuldade em reconhecer que somos pecadores e que não amamos a Deus como deveríamos. No entanto quem dentre nós admitiria que odeia a Deus?
Na carta de Paulo aos Romanos, lemos: "se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho..." (Rm 5.10) O tema central do Novo Testamento é a reconciliação. Não há necessidade de reconciliação entre indivíduos que se amam. O amor de Deus por nós é inquestionável. A sombra da dúvida paira sobre nós. É o nosso amor por ele que está em questão. A mente natural do homem, o que a Bíblia chama de "mente carnal", é inimiga de Deus.
A hostilidade natural que temos contra Deus se revela no pouco valor que conferimos a ele. Não o consideramos digno de nossa devoção total. Não temos prazer em contemplá-lo. Mesmo os cristãos muitas vezes encontram dificuldade em adorá-lo e encaram a oração como uma tarefa penosa. Nossa tendência natural é fugir da sua presença para o mais longe possível. Sua Palavra ricocheteia na nossa mente como uma bola de basquete ricocheteia na tabela.
Por natureza, nossa atitude para com Deus não é simples-mente de indiferença. É uma postura de malícia. Fazemos oposição ao seu governo e recusamos seu domínio sobre nós. Nosso coração natural é desprovido de afeição por ele; é frio, congelado para com sua santidade. Por natureza, o amor de Deus não está em nós.
Como Edwards escreveu, não é suficiente dizer que o homem natural encara Deus como um inimigo. Precisamos ser mais específicos. Nós o consideramos nosso inimigo mortal. Ele representa a mais alta ameaça possível aos nossos desejos pecaminosos. A repugnância que sentimos por ele é absoluta, não podendo ser maior. Nenhum argumento de filósofos ou teólogos poderia induzir-nos a amar a Deus. Detestamos até mesmo a idéia de sua existência e faríamos tudo que estivesse ao nosso alcance para livrar o universo de sua presença santa.
Se Deus colocasse sua vida em nossas mãos, não estaria seguro nem por um minuto. Não iríamos ignorá-lo; iríamos destruí-lo. Essa acusação pode parecer-nos exagerada. Contudo, examinemos mais uma vez o registro do que aconteceu quando Deus veio ao mundo na pessoa de Cristo. Ele não foi simplesmente morto. Foi assassinado por homens malignos. As multidões queriam seu sangue. Não lhes bastava apenas desfazer-se dele; queriam humilhá-lo e zombar dele. Sabemos que foi sua natureza humana que pereceu na cruz; não a divina. Se Deus houvesse exposto a natureza divina à execução, deixando-a vulnerável aos cravos dos executores, Cristo estaria morto, e Deus, ausente do céu. Se a espada houvesse atravessado a alma de Deus, a revolução final teria tido êxito, e o homem agora seria rei.
No entanto protestamos, afirmando que somos cristãos. Amamos a Deus. Experimentamos a reconciliação. Fomos nascidos do Espírito, e o amor de Deus foi derramado em nosso coração. Não somos mais inimigos, porém amigos. Tudo isso é verdade para o cristão. Contudo, precisamos ter cuidado e lembrar-nos de que nossas inclinações humanas naturais não foram aniquiladas com a conversão. Ainda permanece um vestígio da natureza caída, contra o qual precisamos lutar todos os dias. Ainda existe um cantinho da alma que não se deleita em Deus. Podemos constatar isso em nosso pecado contínuo e em nossa adoração letárgica. Essa verdade se manifesta até mesmo em nossa teologia.
Historicamente, só existem três tipos genéricos de teologia, competindo pela aceitação dentro da igreja. São eles: Pelagianismo, Semi-pelagianismo e Augustianismo.
Apenas o Agostianismo tem a graça como centro de sua teologia. Quando entendemos o caráter de Deus, quando compreendemos algo de sua santidade, então começamos a perceber a gravidade do nosso pecado e a nossa impotência. Pecadores impotentes só sobrevivem pela graça. Nossa força é inútil em si mesma; somos espiritualmente incapazes sem a assistência de um Deus misericordioso. Talvez não apreciemos falar sobre a ira e a justiça de Deus. Entretanto, só valorizaremos de fato o que ele fez por nós mediante a graça se compreendermos esses aspectos da sua natureza. O sermão de Edwards sobre os pecadores nas mãos de Deus não tinha por objetivo enfatizar as chamas do inferno, mas o Deus que nos segura e nos resgata do abismo. Somente suas mãos graciosas têm o poder de salvar-nos da destruição certeira.
Como podemos amar um Deus santo? A resposta mais simples que posso dar a essa questão vital é que não podemos. Isso está além de nossa capacidade moral. Por causa de nossa natureza pecaminosa, só conseguimos amar um Deus não-santo, um ídolo que nós mesmos fabricamos. A menos que sejamos nascidos do Espírito, a menos que Deus derrame seu amor santo em nosso coração, a menos que ele desça em sua graça para mudar-nos, não o amaremos. Ele é quem toma a iniciativa de restaurar nossa alma. Sem ele, não somos capazes de fazer nenhuma justiça. Sem o auxílio dele, estaríamos condenados à alienação eterna da sua santidade. Só podemos amá-lo porque ele nos amou primeiro. Amar a um Deus santo requer graça. Uma graça tão forte que penetre nosso coração endurecido e desperte nossa alma moribunda.
Se estamos em Cristo, já fomos despertados. Fomos ressuscitados da morte para a vida espiritual. No entanto, ainda estamos meio sonolentos e, às vezes, andamos como sonâmbulos. Conservamos um certo temor de nos aproximar de Deus. Ainda trememos aos pés da montanha santa.
Contudo, à medida que aprofundamos nosso conhecimento dele, passamos a apreciar mais sua pureza e a sentir uma dependência mais profunda da sua graça. Aprendemos que ele é totalmente digno da nossa adoração. O fruto do amor crescente por ele é o aumento da reverência pelo seu nome. Nós o amamos agora porque reconhecemos seu amor. E porque vemos sua majestade que o adoramos. E só o obedecemos agora porque seu Santo Espírito habita em nós.
A verdade é a raiz do amor
Menciono em primeiro lugar o exemplo de amor de Jesus, não apenas por ser o primeiro e mais evidente ato de amor observado em suas palavras, mas porque, na época em que vivemos, o amor é quase sempre contrastado com a defesa da verdade. Não é o que Jesus demonstra, nem aqui nem em outro lugar. Se alguém dissesse a Jesus: "O amor une; a doutrina divide", penso que Jesus olharia fundo na alma dessa pessoa e diria: "A doutrina verdadeira é a raiz do amor. Portanto, quem se opuser a ela, destruirá a raiz da unidade".
Jesus nunca opôs a verdade ao amor. Pelo contrário, afirmou ser ele próprio a personificação e a essência da verdade: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14.6). Referindo-se outra vez a si mesmo, disse: "Aquele que fala por si mesmo busca a sua própria glória, mas aquele que busca a glória de quem o enviou, este é verdadeiro; não há nada de falso a seu respeito" (Jo 7.18). Foi esta afirmação abrangente de Jesus: "... para isto vim ao mundo; para testemunhar da verdade...” (Jo 18.37), para explicar por que ele viera ao mundo, que levou Pilatos a perguntar com ceticismo: “Que é a verdade?” (Jo 18.38). Até seus adversários viram quanto Jesus era indiferente às opiniões do povo e quão dedicado era à verdade. “Mestre, sabemos que és verdadeiro e não te importas com quem quer que seja...” (Marcos 12.14). Quando Jesus deixou este mundo e retornou para o Pai, no céu, o espírito que enviou em seu lugar foi chamado “Espírito da verdade”: “Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, ele testemunhará a meu respeito” (Jo 15.26).
Portanto, diferentemente de muitos que comprometem a verdade apenas para seguir alguém, Jesus fez o oposto. A descrença de deus ouvintes confirmava a necessidade de uma profunda mudança neles, não na verdade: “Todos os que são da verdade me ouvem” (Jo 18.37); “No entanto, vocês não crêem em mim, porque lhes digo a verdade!” (Jo 8.45). Quando a verdade não produz a reação que queremos – quando ela não “funciona” -, não devemos abandoná-la. Jesus não é pragmático quando se trata de amar as pessoas com a verdade. Nós falamos a verdade, e se ela não for capaz de vencer a opinião do outro, não devemos pensar em mudá-la, e sim orar para que nossos ouvintes sejam despertados e modificados pela verdade: “E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8.32). Jesus orou: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17).
Quando ora para que seu povo seja santificado na verdade, Jesus revela as raízes do amor. A santificação – ou santidade, conforme Jesus a entende –, implica transformar-se numa nova pessoa. Ele está orando para que nos tornemos pessoas que amam, misericordiosas, pacificadoras e perdoadoras. Tudo isso faz parte da oração: “Santifica-os”, e tudo isso acontece em verdade e pela verdade, jamais separado dela. O esforço de opor o amor à verdade é como pôr a fruta contra a raiz ou o acendedor contra o fogo; ou como construir, sem um alicerce firme, um dormitório no segundo pavimento da casa. A casa inteira desmoronará, levando junto o dormitório, se o alicerce ruir. O amor vive pela verdade, inflama-se por meio da verdade e subsiste por causa da verdade. Foi por isso que o primeiro ato de amor de Jesus, ao nos dar o mandamento de amar, foi corrigir uma falsa interpretação das Escrituras.
John Piper, em O que Jesus espera de Seus seguidores.
Fonte: Orthodoxia
John Piper, em O que Jesus espera de Seus seguidores.
Fonte: Orthodoxia
por Mauricio Andrade
Há, nas Escrituras Sagradas, uma demanda por transparência e definição! O profeta deve apresentar a visão de modo que até o corredor possa lê-la – em plena corrida!(Habacuque 2.2). Nossa palavra deve ser sim, sim! ou não, não! – sob pena de nos alinharmos com uma fonte maligna de informação (Mateus 5.37). E existe um clamor por definição ainda no finalzinho da última profecia (Apocalipse 22.11). Mesmo no início da Bíblia, já existe ordenação para evitar a confusão (Deuteronômio 22.5) com a qual, aliás, Deus não se identifica (1 Coríntios 14.33).
Não costumo usar os termos calvinista e calvinismo, quando prego. A razão é simples: não é, geralmente, necessário. Refiro-me ao Evangelho e, pra mim e alguns outros (Charles Spurgeon, inclusive), dá no mesmo.
No entanto, às vezes, por motivo de clareza e compreensão, precisamos usar expressões histórica e teologicamente consagradas. Elas não definem o nosso time, a equipe à qual pertencemos. Definem, com mais precisão, nossa persuasão teológica.
Há professores de seminário que são pastores de igreja. Alguns deles ensinam uma coisa na Academia e outra no púlpito. Não dá pra saber o que eles realmente creem. Tivemos em nossa igreja um seminarista que relatou, atordoado, a confissão de um de seus professores de que não cria que houvesse alguém ouvindo nossas orações. O jovem interpelou o mestre, após a aula, e perguntou por que, então, o professor ainda orava. A resposta: “Por causa da angústia humana!”
Outros professores negam, em classe, o relato da Criação, a existência de personagens bíblicos, a autoria apostólica dessa ou daquela epístola. Tudo supostamente apoiado em estudos científicos, pesquisas mais profundas, etc, etc, etc. Só não têm a coragem de dizer a mesma coisa nos púlpitos de suas igrejas: o “povão” costuma ser mais conservador e alguém poderia perder o “emprego”. Okay, conheço toda aquela conversa sobre Academia e Igreja e a diferença entre elas. Mas estamos falando da imutável Palavra de Deus – ou, caso contrário, da palavra de deus nenhum! E estamos falando da formação de ministros da Palavra – ou, caso contrário, apenas de profissionais eclesiásticos.
Algumas vezes, sendo indagado por algum irmão sobre minha fé, percebo que ele ou ela não sabe em que crê um calvinista. Por isso, aqui vão umas poucas dicas:
- um calvinista crê que a Bíblia é a Palavra de Deus;
- crê que o ser humano precisa ser salvo de seus próprios pecados e da ira de Deus – mais do que de qualquer outra coisa;
- crê que somente o Evangelho da graça de Deus, que apresenta Cristo na cruz, pode salvar o pecador;
- crê que o Espírito de Deus é quem regenera o pecador, dispondo-lhe o coração para crer no Evangelho.
- crê que o pecador deve receber o Evangelho com fé e arrependimento, e viver debaixo do senhorio de Jesus Cristo em novidade de vida.
- que santidade ainda é importante, sim!
- crê na superioridade de uma cosmovisão bíblica sobre qualquer outra percepção da realidade;
- crê que a Criação existe para expressar a glória de Deus, em seu amor e bondade;
- que hoje, sobre a Criação, atuam tanto a Queda como a Redenção – de modo que nada deve ser nem aceito nem rejeitado a priori;
- que os mandados da Criação – cultural, social e espiritual – são uma ótima forma de expressar santidade no mundo, glorificando, assim, nosso Criador-Redentor;
- que a exposição, explicação e aplicação das Escrituras, por pregadores piedosos e fiéis, é a necessidade mais urgente nos púlpitos evangélicos;
- que amar as pessoas é a consequência necessária da sã doutrina; - que amar a Deus sobre todas as coisas é a essência de nossa salvação!
- crê que o ser humano precisa ser salvo de seus próprios pecados e da ira de Deus – mais do que de qualquer outra coisa;
- crê que somente o Evangelho da graça de Deus, que apresenta Cristo na cruz, pode salvar o pecador;
- crê que o Espírito de Deus é quem regenera o pecador, dispondo-lhe o coração para crer no Evangelho.
- crê que o pecador deve receber o Evangelho com fé e arrependimento, e viver debaixo do senhorio de Jesus Cristo em novidade de vida.
- que santidade ainda é importante, sim!
- crê na superioridade de uma cosmovisão bíblica sobre qualquer outra percepção da realidade;
- crê que a Criação existe para expressar a glória de Deus, em seu amor e bondade;
- que hoje, sobre a Criação, atuam tanto a Queda como a Redenção – de modo que nada deve ser nem aceito nem rejeitado a priori;
- que os mandados da Criação – cultural, social e espiritual – são uma ótima forma de expressar santidade no mundo, glorificando, assim, nosso Criador-Redentor;
- que a exposição, explicação e aplicação das Escrituras, por pregadores piedosos e fiéis, é a necessidade mais urgente nos púlpitos evangélicos;
- que amar as pessoas é a consequência necessária da sã doutrina; - que amar a Deus sobre todas as coisas é a essência de nossa salvação!
Não! A predestinação não é a característica principal da doutrina calvinista. A característica principal da doutrina calvinista é a supremacia da glória soberana de Deus sobre todas as coisas!
Agora você já sabe, pelo menos um pouco, o que deve esperar desse curioso ser, o cristão calvinista. E, se você é calvinista e estava com a ênfase errada, há tempo para corrigir!
Fonte: Editora Fiel
SALMOS 73:1-28"Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória"
Asafe era diretor de música nos dias de Davi e Salomão. Crente no Senhor, compôs 12 hinos que passaram a fazer parte dos Salmos. Da sua experiência com o Senhor, podia dizer "com efeito, Deus é bom" (Sl 73:1). Porém, durante uma fase de sua caminhada com o Senhor, enfrentou uma crise espiritual muito grande, a ponto de declarar "quase me resvalaram os pés; pouco faltou para que se desviassem os meus passos" ( Sl 73:2 ) Como Asafe, você pode estar vivendo momentos de dúvidas e quem sabe até tenha pensado em se afastar dos caminhos do Senhor. Vendo o que levou esse levita à beira do precipício e como ele saiu de sua crise espiritual, você descobrirá que mesmo em meio a lutas, vale a pena servir ao Senhor.
Comecemos com os motivos que quase levaram Asafe à descrença.
Comecemos com os motivos que quase levaram Asafe à descrença.
I. ASAFE OLHOU PARA O HOMEM
O erro de Asafe foi deixar de olhar para o Senhor para analisar o que acontecia com as pessoas à sua volta. Ao fixar os olhos na experiência dos homens, tirou conclusões que o levaram para muito perto da apostasia.
1. Asafe invejou os descrentes, (Sl 73:2-12)
O próprio Asafe confessa que "invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos" (Sl 73:3). O que ele viu nos seus dias é a mesma coisa que você vê ao reparar no estilo de vida dos descrentes de hoje. Os descrentes viviam sem preocupações com doenças, "o seu corpo é sadio e nédio" (Sl 73:4). Além disso, "não são afligidos" (Sl 73:5). A conseqüência dessa vida despreocupada é"a soberba que os cinge como um colar, e a violência que os envolve como manto" (Sl 73:6). Chegam a blasfemar, "contra os céus desandam a boca, e a sua língua percorre a terra" (Sl 73:9). Asafe também notou que os descrentes geralmente são pessoas populares. Quanto mais ímpios forem, mais "o seu povo se volta para eles e os tem por fonte de que bebe a largos sorvos" (Sl 73:10). Ao invés de serem castigados, os descrentes, estão "sempre tranqüilos, aumentam suas riquezas"(Sl 73:12). Isso deixava Asafe arrasado.
Mas então, ele volta sua atenção para os crentes. E o que ele percebeu, não o fez sentir-se melhor.
2. Asafe lamentou a sorte dos crentes (Sl 73:13-14)
Olhando para si mesmo, ele concluiu tristemente que "inutilmente conservei puro o coração e lavei as mãos na inocência" (Sl 73:13). A sua avaliação era de que a santidade não compensava, pois apesar de manter-se fiel "de contínuo sou afligido e cada manhã, castigado" (Sl 73:14). Talvez você tenha chegado à mesma conclusão de Asafe, de que enquanto os descrentes prosperam no mundo, os crentes vivem uma vida de aflição. Quem sabe você concorda que quanto mais se consagra, mais dificuldades enfrenta.
Antes de prosseguir, gostaria de dizer que você e Asafe não estão sozinhos. Cada um em seu tempo, tanto Jó, Davi, Isaías, Jeremias, Habacuque, Paulo como muitos outros observaram que poucos ricos serviam a Deus e no entanto pareciam prosperar cada vez mais. Enquanto que os crentes eram, nas palavras de Paulo, a "escória do mundo". Cada uma dessas pessoas reagiram a seu modo diante disso. A reação de Asafe quase o levou para longe da fé. E a sua? Qual a sua reação diante da prosperidade dos descrentes e do seu sofrimento?
II. ASAFE TORNOU-SE AMARGURADO
A reação de Asafe, como dissemos, quase o levou para fora do arraial da fé. Ele se tornou um crente amargurado com o que via à sua volta e dentro de si.
1. Não conseguia compreender, (Sl 73:16)
Primeiro, ele não conseguia compreender como as pessoas descrentes viviam melhores que os crentes. Nas suas palavras, "em só refletir para compreender isso, achei mui pesada tarefa para mim" (Sl 73:16). Quanto mais pensava sobre o assunto, mais angustiado ficava. Como poderia um Deus justo deixar impune o perverso e diariamente submeter os crentes a uma disciplina rígida? Isso não entrava na cabeça de Asafe.
2. Não conseguia falar (Sl 73:15)
Como um líder na congregação, Asafe não podia compartilhar suas dúvidas com seus companheiros, pois poderia semear a dúvida em seus corações. Aquilo que esmagava o seu coração não podia ser divido com outros, que poderiam desviar-se. Asafe até pensava em se abrir com alguém, mas então pensava que isso seria trair a fé de seus irmãos. Dizia ele, "se eu pensara em falar tais palavras, já aí teria traído a geração de teus filhos" (Sl 73:15). É bom destacar que a atitude de Asafe foi louvável, pois visava poupar a fé de irmãos mais fracos. Porém, ao se calar, foi cada vez mais consumido pela dúvida.
3. Não conseguia aceitar (Sl 73:21-22)
Asafe não conseguia aceitar em seu coração essa situação. A amargura invadiu a sua alma. Mais tarde ele descreveria a sua situação nas seguintes palavras "quando o coração se me amargou e as entranhas se me comoveram, eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença" (Sl 73:21-22). Você já veio alguma vez ao culto e de tão angustiado não conseguiu sentir a presença de Deus? Ao invés de prestar atenção ao que era ministrado, ficava remoendo sua situação? Então você entende como Asafe se sentia. Ele estava se tornando insensível às coisas de Deus.
Mas então aconteceu algo que o tirou da situação em que se encontrava. Preste atenção, pois é isso que precisa acontecer com você, para que todas as dúvidas se dissipem e você possa se regozijar na presença de Deus.
III. ASAFE ENTROU NA PRESENÇA DE DEUS
Até quando durou a crise espiritual de Asafe? Ele nos responde: "até que entrei no santuário de Deus" (Sl 73:17). Como ministro do louvor, é certo que ele estava sempre no templo. Porém, dessa vez, ele realmente se colocou diante de Deus. Ao invés de ficar olhando para o estilo de vida dos ímpios, olhou para o Senhor. Ao invés de procurar uma explicação racional para seu sofrimento dentro de si, voltou sua atenção para o seu Deus, e então as coisas se desanuviaram. Não é comparando a vida do descrente com a vida do crente que você encontrará as explicações que procura, mas colocando-se aos pés do Senhor, para aprender de Suas palavras.
1. Compreendeu o fim dos descrentes, (Sl 73:17-20,27)
Após entrar no santuário, Asafe disse "atinei com o fim deles" (Sl 73:17), referindo-se aos descrentes. Até então, Asafe tinha reparado apenas na situação presente dos ímpios, mas agora o Senhor lhe mostrava o fim deles. Aparentemente seguros, na verdade os ímpios viviam sob um perigo mortal, pois "Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição" (Sl 73:18). Deus não os deixará impunes em sua iniquidade, mas "ficam de súbito assolados, totalmente aniquilados de terror!" (Sl 73:19). Embora a sua prosperidade pareça nunca acabar "como ao sonho, quando se acorda, assim, ó Senhor, ao despertares, desprezarás a imagem deles" (Sl 73:20). Deus não esqueceu nem relevou a maldade dos ímpios, mas os está reservando para o dia do juízo, quando então terão a retribuição de sua maldade. Asafe comprendeu então que a longanimidade do Senhor não deve ser confundida com injustiça, pois "os que se afastam de ti, eis que perecem; tu destróis todos os que são infiéis para contigo" (Sl 73:27)
2. Descobriu a segurança dos crentes, (Sl 73:23-26,28)
Porém, a maior descoberta de Asafe não foi saber como os ímpios acabam, mas como os justos permanecem para sempre. Ele lembrou-se de algo que só o crente pode dizer: "todavia, estou sempre contigo, tu me seguras pela minha mão direita" (Sl 73:23). Em meio ao sofrimento, o crente não está sozinho nem desamparado. Na estrada íngrime da fé, só o crente pode dizer "Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória" (Sl 73:24). Ao pensar nessas verdades, Asafe só podia exclamar "quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra"(Sl 73:25). Ah! meu irmão, Deus te basta! O Senhor te é suficiente! Se você tem Deus no céu e se deleita dele na terra, então nem a maior prosperidade dos ímpios nem o maior sofrimento irá te tirar a alegria da salvação! O segredo que Asafe descobriu é que "ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre" (Sl 73:26).
O que é melhor, possuir todas as riquezas do mundo ou viver na presença de Deus? Depois de encontrar-se com Deus no santuário, Asafe não teve mais dúvidas: "quanto a mim, bom é estar junto a Deus; no Senhor Deus ponho o meu refúgio, para proclamar todos os seus feitos" (Sl 73:28). Você trocaria uma vida na presença de Deus e uma eternidade na glória por prosperidade material na terra e uma eternidade no inferno? Tenho certeza que não, logo, não há motivo para você duvidar da bondade de Deus e menos ainda para invejar a sorte dos que seguem a maldade.
CONCLUSÃO
Agora eu preciso falar de uma coisa muito séria. O que Asafe fez foi muito grave, pois quase o mergulhou na descrença. Mas foi ainda mais grave porque colocou em dúvida a bondade e a justiça de Deus. Se você, como ele, pensava que Deus agia de forma errada ao permitir que os ímpios prosperassem enquanto os crentes eram afligidos, também pecou contra o Pai. Por isso, precisa pedir perdão ao Senhor. Faça isso agora. E na mesma oração, confesse a Deus que Ele é teu socorro no céu e alegria na terra, e que tendo Ele em sua vida, nada lhe fará falta. Oremos a Deus.
Soli Deo Gloria
Sermão preparado para ser entregue na Igreja O Brasil para Cristo em Medianeira.
Fonte: Cinco Solas
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